De novo percorro as retas alentejanas. E de novo me deixo prender num labirinto de emoções. Afinal, era aquele o crepúsculo desejado. O despedir-me daquele poente incendiado. De olhar o Sol, a derramar-se sobre a planície silenciosa. Ali, junto à Barragem de Montargil, um sereno espelho de água e, na sua margem, em contra - luz, a silhueta de um pescador, esperando pacientemente que o peixe morda o anzol. No fim de cada reta, no fim de cada nada, um povoado. E, porque hoje é sábado, no empedrado das ruas estreitas, as pequenas tabernas, onde, no seu exterior, sentados em pequenos bancos de madeira, os homens vão confraternizando à roda da mesa, onde repousam garrafas de cerveja e copos tingidos do vinho espesso. Na sua esmagadora maioria, gente cuja idade lembra o mês que percorrem – outubro. O outubro das suas existências. Para trás, ficou a labuta da terra que lhes deu o sustento. Do arado a gemer e a ferir a terra dura e sequiosa. São oito horas da noite. Em breve, se perfilará perante mim, a esfinge fantasmagórica dos sobreirais. Mas foi para ali, que orientei hoje o meu destino. Chegado ao hotel, encontrei o pequeno grupo de ex-militares com quem convivi num período da minha vida. Fomos de véspera – como sempre vamos - para o nosso encontro anual com a toda a Companhia. Agora que a noite tombou sobre o Alentejo, nada como procurar um restaurante, naquele labirinto de ruas estreitas de Montemor – o - Novo. Quero segredar – vos, que a escolha foi acertada. Na mesa, as mais variadas iguarias. A açorda, as migas, o porco preto e um vinho de Pias, de fazer estalar o céu – da - boca. São agora onze da noite. O corpo começa a reclamar cama, de cansaço. Mas ainda não acabou o dia e é apenas o começar da noite. De novo lá vamos, desbravando a planície noturna. O destino é Arraiolos, já os ponteiros da velha torre se unem, como se fossem um só. É meia - noite na pequena vila. Não se vê vivalma. Apenas este ou aquele habitante, de olhar vazio, no cruzamento das ruas estreitas. Os muros brancos, contrastam com as singelas janelas, encaixadas em esquadrias pintadas a tinta azul, que lhes avivam a tez morena da madeira castanha ressequida. Num largo, um bando de jovens, sentam-se na esplanada. Eles e elas. Garrafas de água e cerveja, fundem-se em cima da mesa do pequeno café. Lá dentro, de avental, um homem idoso vai varrendo o chão de cimento, como quem varre as memórias de uma vida plantada no meio do silêncio e dos silêncios. Os ponteiros do relógio, já espreitam a uma da madrugada. Apenas a luz difusa dos candeeiros de rua, projeta um clarão pálido sobre os telhados do casario. São horas de regressar. Apenas o tempo de percorrer um pequeno jardim. Ao fundo, um busto. E um nome, numa placa de bronze. Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara. Estranho nome para um português ilustre. Que o foi, na sua qualidade de médico e Homem de Letras, natural da vila de Arraiolos. Por alguns momentos, fiquei a fitá-lo. O seu semblante, assemelhava-se a Alexandre Herculano. O meu amigo Paulo Archer, advogado em terras do norte, também concordou. Foi então que, junto ao chão, repousavam algumas folhas caídas. Deu para lembrar Garrett, a par de Herculano. Um momento simbólico, naquele elogio ao silêncio. E a Joaquim da Cunha Rivara, um português que é um orgulho de uma vila. Por isso aqui estou, anonimamente, a homenageá-lo. A minha forma de abraçar o povo alentejano. E o Alentejo.
Q.P.
Q.P.






