Maldita sina, disse eu para com os meus botões, depois de
bater com a porta do gabinete do chefe. Eu já andava desconfiado, quando o
telefone tocou. Do lado de lá da linha do telefone interno, percebi a voz da
pequena e roliça secretária do “Boss” do Gabinete Jurídico. O homem queria
falar comigo. Fui. Bati à porta e entrei. Lá dentro, refastelado numa cadeira
de bispo, o doutor olhou-me por cima dos óculos graduados, envolto numa nuvem
de fumo do cigarro que repousava no cinzeiro, enquanto fechava a “Gazeta do
Interior”. Depois, mandou-me sentar e cordialmente disparou, enquanto de
recostava na cadeira de espaldar alto:
- Pereira, estou farto de trapalhões …farto …farto … farto …
E acrescentou:
- Sabe, ando cansado de fazer autos de contra – ordenação de
caçadores mentirosos … não tenho pachorra para trapalhadas e trapalhões … já me
basta os que tenho que ouvir na Assembleia da Câmara Municipal … pus-me a
pensar e você reúne todos os requisitos … não se importa de redigir e tem
toneladas de paciência para aturar os tipos a mentir com quantos dentes têm na
boca ...
Depois, quase suplicante, pediu-me para fazer a tarefa e, solícito,
até me arranjou um gabinete particular para ouvir os infratores. Despedi-me, bati
com a porta e disse cá para comigo:
- estou feito !!!
Foi às duas da tarde, que o prevaricador me entrou pela porta
adentro. Vinha transpirado e afivelava no rosto um sorriso amarelo. Cumprimentou-me
com uma vénia e mandei-o sentar. Depois da devida identificação em auto de
declarações e à matéria dos autos disse: “… que levava a espingarda ao ombro e
deu inadvertidamente com o dedo no gatilho, a espingarda deu um tiro para o ar
e, azar dos azares, caiu-lhe um pombo ferido quase em cima da cabeça…”.
- Foi mesmo assim ??? … perguntei de sobrolho franzido. Não acha que a sua
justificação tem muito pouca imaginação?
- Acho … mas não encontrei outra …
- Vá … pense melhor, senão os decisores vão rebolar a rir e
aplicam-lhe a coima máxima por você estar a fazer deles parvos …olhe eu não
tinha nada que lhe dizer isto, a minha missão aqui é ouvir e escrever, mas você
está tão nervoso …olhe que ninguém está aqui para matar ninguém …
Ficou a olhar para o teto, remexeu nervosamente as fartas
nádegas na cadeira e disse:
- O pombo não era meu, já estava ferido no chão e eu
apanhei-o …
- Está melhor – disse-lhe eu - enquanto ia desfolhando distraidamente
uma velha folha de anúncios do ”Correio da Manhã”, perdida em cima da
secretária, em que fui lendo, enquanto o declarante se assoava ruidosamente
…”aluga-se quarto a menina, com serventia de cozinha. Casa séria.” … “ Vende-se
Volvo preto de 2OO4, com 4O OOO quilómetros reais, jantes de oito polegadas e
volante de competição, estimadíssimo, um só dono de livrete. Preço a combinar ”
… “ Mulatinha gulosa, Pernambucana, meiguinha e sensual, atende em privado em
apartamento na Trafaria. Também faz domicílios. Telem: 123456789” … “
Cavalheiro de meia - idade, situação económica desafogada, com carro, procura
senhora entre os 3O e 4O anos para futuro compromisso. Assunto sério e
sigiloso” …
- Bem … posso escrever no auto a sua declaração ?
- Escreva …
Escrevi.
Outro:
- E como é que justifica ter zagalotes dentro da sua
carrinha, após a revista da Guarda Republicana? “
- Sabe, senhor
instrutor, foi a minha miudita que é muito traquina, … eu tinha os zagalotes
dentro da caixa dos brinquedos dela e ela … pumba ... pega nos zagalotes e vai
metê-los na carrinha … é levada da breca aquela minha Catarina, ainda lhe dei
dois açoites no rabo para ter emenda !!!.
- Pois, disse eu, enquanto esfregava a tampa da lapiseira no
queixo …
- Escrevo essa justificação ?
- Claro … escreva … Deus me ajude se não foi assim …
- Ó homem, não meta Deus nisto, que o Papa até o pode
excomungar …
Escrevi.
Ainda outro:
- Ó senhor instrutor, pelas suas alminhas santas, veja lá o
que é escreve, olhe que eu vivo com muitas dificuldades …
- Ai vive ???!!! Bem … mas consta aqui no auto
de ocorrência, que na altura da transgressão se fazia transportar num Jeep Land
Rover , com atrelado e sete cães !!!
- Vivo mesmo … tenho a mulher desempregada … são muitas as
dificuldades e até trago aqui a prova …
Depois ergueu-se, remexeu no bolso de trás das calças e
apresentou-me um documento sujo e muito amarrotado. Eram um atestado de pobreza
passado pela junta de freguesia da residência dele…
Com a ponta dos dedos e um ar enjoado, anexei o moribundo
atestado de pobreza aos autos …
Escrevi.
Mais outro:
- Senhor Instrutor, estou lixado, estou mesmo lixado, assumo
que andava aos tiros aos pombos junto da povoação, mas não posso pagar a multa
… a minha mulher farta-se de trabalhar na fábrica que nem uma moira e ainda em
casa … se ela sabe desta multa mata-me … ainda temos quatro prestações do
frigorifico…ó senhor instrutor se a “pastilha” que vou pagar pudesse vir para
aqui em vez de ir lá para casa para ela não saber, eu vinha logo cá a correr …senão
ela mata-me, parece-me que até já a estou a ouvir aos gritos e a chorar …
“ e à matéria dos autos disse que assume que andava a caçar
junto da povoação de Caféde. Mais desejou verter para os autos que vive do seu
trabalho e do da sua mulher, não auferindo de quaisquer outros recursos. Que
tem ainda a seu cargo o pagamento de várias prestações de eletrodomésticos.
Perguntado se pretendia apresentar quaisquer documentos de encargos, fez menção
de exibir os recibos de renda da casa que habita e do pagamento de água e da
luz. Destes documentos foram extraídas cópias que, depois de rubricadas
pelo instrutor e declarante, vão ser apensas aos autos”
Gemeu a sua desdita, assinou o auto e partiu …
Finalmente:
- A Polícia Florestal, menciona aqui no auto de ocorrência,
que o senhor se encontrava agachado junto a um muro, de espingarda na mão, no
exercício do ato venatório …
- Mentira senhor … desculpe como é a sua Graça?
- Pereira, chamo-me Pereira …
- Pois, Senhor Pereira, é uma redonda mentira …
- É ???
- É …olhe senhor… senhor …desculpe mas voltei a esquecer-me da
sua Graça …
- Pereira … Eurico Pereira …
- Eu explico, Senhor Pereira, com a sua licença e peço perdão
pela franqueza, sabe, … eu ando um bocado solto dos intestinos e estava a
agachar-me para fazer as necessidades quando os guardas apareceram …
- A fazer as necessidades de espingarda na mão ?
- Pois aí é que está a grande mentira … a arma estava
encostada a um muro, ó Senhor Pereira como é que eu podia desapertar o cinto
das calças com as mãos ocupadas?
-Tem lógica – disse eu, enquanto rapava com as unhas o
cocuruto da cabeça …
- Eu, Senhor Pereira, sou um homem muito reto, o que é
verdade é verdade e o que é mentira é mentira …
- Bem vou notificar os guardas para virem cá e também a si
para uma acareação …
- Como ???
- Os senhores vão ficar frente a frente para se esclarecer
isto …
- Acho bem … esse guarda A.L. nunca me gramou e deve ser
alguma vingança …
“ …e à matéria dos autos disse que se a preparava para fazer uma
necessidade fisiológica, com a espingarda encostada ao muro, quando foi
abordado pelas autoridades .
Mais não disse. E sendo-lhe lidas em voz alta as suas
declarações as achou conforme, ratifica e vai assinar, comigo, fulano,
instrutor nestes autos que também os secretariei .”
Quando ele saiu, bati com a porta do gabinete e resmunguei
para com os meus botões o que tinha vaticinado uns meses antes. MALDITA SINA
!!!
Quito Pereira