Há, durante os meses de Verão, um Portugal que se diverte e
se retempera das canseiras de um ano. Há também aqueles que, por razões
profissionais, doença, incapacidade financeira ou simples fobia a viagens,
passam as férias na zona da sua residência. E há ainda os outros que, zelando
pelos bens de todos nós, colocam em risco o seu bem mais precioso – a vida.
Como cidadão, vou estando atento ao que se vai passando pelo
país e é a morte de mais um bombeiro de Valença ocorrida hoje nos Hospitais da Universidade de Coimbra, que me faz partilhar com os
amigos todo o meu pesar. São já sete os bombeiros mortos e muitos os feridos.
Talvez o facto da minha vida profissional ter sido ligada à
floresta, me desperte ainda mais a atenção para toda esta tragédia. Recordo que
numa situação de apuro, já lá vão muitos anos, me juntei a muitos outros
funcionários florestais num violento incêndio em Arganil. Foi uma tarde e noite
de pesadelo. Lembro-me de às primeiras horas da madrugada, estarmos todos exaustos
e famintos.
Sei, por isso, dar o valor ao sofrimento destes homens e
mulheres. Mas sei - também sei - que parte dos fogos florestais são de origem
criminosa. A Policia Judiciária já identificou o perfil dos indivíduos que o
fazem. Mas há igualmente interesses subjacentes a este flagelo, se pensarmos
que a madeira queimada, vale muito menos dinheiro que uma árvore saudável e
disso se queixam muitos proprietários, que vêm as suas florestas dizimadas, a
serem pagas por preços irrisórios, numa lógica do “pega ou larga”,
completamente desprotegidos e vítimas de oportunismos de ocasião.
Lembro-me de se organizar lotes de madeiras ardidas, para
serem vendidos em hasta pública. E recordo a prática do “cambão”, entre industriais
do setor, combinados uns com os outros, por forma a licitar os lotes por
preços muito baixos, quando os “queimados” pertenciam às Matas Nacionais. Nada
era transparente, a não ser o profissionalismo daqueles que, não ganhando nada
com isso a não ser o seu salário, tentavam obter um preço justo para os Cofres Públicos.
Afinal, uma dignidade profissional tão vilmente maltratada e posta em causa nos
dias de hoje, para justificar práticas políticas obscuras.
A morte de tantos bombeiros, porém, faz também refletir sobre
a margem de segurança – se assim se pode chamar – a que estes homens devem
trabalhar, no sentido de não serem surpreendidos. Ouvi muitas vezes – vezes sem
conta – que a estratégia de ataque a um fogo urbano de grandes proporções
(recordo aqui o Chiado, na capital) nada tem a ver com as técnicas de combate a
fogos florestais.
Ainda há dias, uma patente superior dos bombeiros, alertava
para esse facto. Uma situação grave, não pode tirar o discernimento a quem deve
saber como não colocar os homens em risco ou, pelo menos, no risco mínimo de
uma fatalidade. A idade dos nossos bombeiros falecidos, quase todos na flor da
vida, faz-me meditar sobre a sua generosidade e no ímpeto normal de quem tem do
perigo eminente, uma ideia que só é amadurecida com a experiência de muitos
anos nestes sinistros. Estes jovens, homens e mulheres, são os nossos heróis.
Um dia, alguém apelidou esta geração de rasca. Uma frase muito infeliz, de quem
a produziu.
Nesse aspeto, aqui lembro a especialização de Mestres e
Guardas Florestais no combate a fogos. Sempre lá andaram e, que me recorde, não
tenho ideia de nenhuma baixa nesta classe profissional, neste particular.
Não será descabido aqui refletir, que o problema dos fogos
florestais, não se resume a atacar um qualquer sinistro. É a montante que está
a chave do relativo sucesso deste flagelo. Que o mesmo é dizer, que é numa ação
concertada de toda as entidades envolvidas na preservação e manutenção do nosso
património verde, na reflorestação, no reordenamento do território em termos de
mancha florestal e na limpeza das matas particulares e do Estado, tão
degradadas e entregues a si próprias, que poderá permitir alguma trégua em
todas as épocas estivais. As lixeiras a céu aberto, em que se transformaram as
matas, com a consequente carga térmica, são fatores de ignição que dão origem a
uma percentagem significativa de incêndios.
Porém, há ainda que recordar as
causas naturais, caso de trovoadas e faíscas, com uma componente elevada de
risco. Dos incêndios de origem criminosa, é opinião generalizada que uma moldura
penal mais rigorosa desmotivaria os pirómanos. Um engano, atrevo-me a dizer.
Este tipo de crime sempre houve e sempre haverá e é de impossível resolução, se
pensarmos que a mente de cada indivíduo é uma carta fechada e não é humanamente
possível às autoridades, descobrir o que vai no íntimo de cada cidadão.
A desocupação das casas florestais onde os guardas viviam com
as suas famílias, também tem muito a ver, em minha opinião, com o abandono das
Matas do Estado. Havia uma relação de proximidade e, cada Mestre ou cada
Guarda, conhecia o perímetro florestal onde estava inserido, como as suas
próprias mãos. Também dos assalariados florestais que, sob a sua orientação,
removiam todos os pontos de conflito entre a floresta e o meio ambiente,
suscetíveis de dar origem a focos de incêndio.
Naturalmente, que sempre houve este tipo de sinistros, mas a
atenção era redobrada e os fogos postos uma realidade. Porém, as sete
Administrações Florestais da Zona Centro – Aveiro, Mira, Figueira da Foz,
Lousã, Bussaco, Arganil e Águeda – pugnavam pela manutenção deste património,
herança importante para as futuras gerações.
Das casas abandonadas, pretendem agora requalifica-las para
turismo. Mas a quem interessa fazer turismo numa antiga casa florestal, com um
horizonte desolador de cinza e esqueletos de pinheiros, carvalhos e eucaliptos,
pergunto-me? Nem tudo, após abril, correu bem. A fúria reformista, em alguns
casos, levou a cometerem-se erros crassos, ostracizando quem, com conhecimento
de causa, zelava por aquilo que nos pertence a todos – as Matas Nacionais.
Porém, é aos Bombeiros
que venho aqui prestar a minha homenagem. Uma saudação bem sentida, com a
preocupação e os votos de que todo o equipamento perdido neste brutal combate
possa ser substituído e entregue a quem dele necessita, já que, infelizmente, o
maior mal, a perda de vidas humanas, não há forma de recuperar. Apenas
perpetuar a sua memória.
Bem hajam pela vossa abnegação e esforço, Bombeiros de Portugal.
Quito Pereira