Pormenor de Carvalhelhos ...
(Foto São Vaz)
Percorrer Trás os Montes, é navegar na rota do silêncio. E da paz. A paz que se traduz na vastidão dos lameiros. Dos animais pachorrentos, que povoam os caminhos, aparentemente sem dono que lhes siga o rasto. E há o fumo das chaminés das casas simples mas fartas da comida e da bebida reconfortante, com que se presenteia o viajante. Também do acolhimento daquela gente boa e hospitaleira. De Boticas, são gradas as lembranças.
Recordo a vila impecavelmente limpa, os seus jardins bem tratados
e aquele espigueiro junto da Câmara Municipal, a dar ao armazém onde o Homem
guarda o produto do seu labor, o estatuto de monumento. E aquela calma, quase um
mistério. O ar límpido que se respira, livre de fumos e do concerto de apito
dos automóveis apressados. Há um equilíbrio entre a Natureza e Homem, que a
respeita. À medida que vamos subindo a estrada sinuosa, em direção a
Carvalhelhos, é a melancolia da paisagem que surpreende os mais atentos. A
tonalidade das cores que povoam os campos, são telas dignas da paleta de um
qualquer pintor inspirado. Os líquenes, que proliferam por todo o lado, são
certificados de despoluição.
Lá mais à frente, viramos à direita por uma estrada estreita
e alcatroada, até encontrarmos, por entre bosques e em belo enquadramento, a
Estalagem. Ali, naquela unidade hoteleira, passei, por vários anos, alguns dias
de inverno. Recordações inolvidáveis. Do estalar da lenha seca na enorme
lareira, ao anoitecer, numa roda de amigos. O acordar pela manhã, cercado de um
manto branco e a neve a bater com luvas de lã, na vidraça da janela. Os passeios
pelos parques adjacentes. A simpatia das funcionárias da estalagem. Ambiente
familiar, comida bem confecionada e um “cozido à portuguesa” domingueiro, como
já não há. Sim, já não há.
Pelo menos ali, porque a estalagem fechou. A pretexto de umas
obras de beneficiação, que em verdade estava a necessitar, os proprietários
encerraram aquele meu álbum de memórias. Faço votos, para que a Estalagem de
Carvalhelhos, de novo abra as portas de par em par. Com a mesma qualidade e o
mesmo espírito familiar que faz de Trás os Montes, um hino à tradição de bem
receber o forasteiro.
Quito Pereira








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