A lavadeira precoce
Eu mal saíra da segunda infância (os
entendidos dizem ser esse período dos 3 aos 6 anos) e minha mãe já colocara
diante de mim uma árdua tarefa: lavar uma rede (aliás, muito comum o seu uso no Brasil,
em todas as regiões. Embora de origem ameríndia, índios que habitavam as terras brasileiras,
antes mesmo do Descobrimento, já se utilizavam da rede. “Herança” do Brasil
Colônia, além de ser utilizada para dormir, servia para enterrar os mortos no
meio rural e até mesmo como meio de transporte, sendo que os escravos é que
carregavam os colonos em passeios pela cidade e até em viagens. Um tempo cruel,
que já passou!).
Voltando ao assunto da tarefa, antes
que eu divague no assunto do escravagismo, lembro-me
perfeitamente quando ela me mostrou a rede que eu deveria lavar. O seu
comprimento era maior do que o meu cinco vezes. Nem me perguntou se eu
conseguiria lavar e já foi me dizendo como fazê-lo. Estendeu a rede no piso feito de cimento, deu-me
sabão em barra, uma pequena escova e um
balde, que serviria para colocar água .
Em segundos, demonstrou-me como eu deveria fazer e, o mais
importante: COMO ela queria que ficasse a rede!
Lavei aquela rede
toda, joelhos no chão, escova vai, escova vem; enche balde d´água, derrama
balde d´água, n´um tempo interminável.
A ordem era para chamá-la somente quando eu tivesse terminado a tarefa, que ela
viria para me ensinar a “torcer” a rede (devido à minha estrutura física, eu
não conseguiria, levantar aquela rede, que, molhada, triplicou o peso).
“Mamãeeee, terminei!”, gritei,mas com muito medo de ela achar que
estava “lavado igual a minha cara”, como as mães se referiam, àquela época,
quando um filho fazia algo malfeito.
Mas o que ouvi foi: “Não
está bem, mas na próxima já lavará melhor”.
E, pegando a rede por um dos punhos, colocou estes em um galho e me disse para pegar na outra ponta da rede
e ir enrolando-a, até que toda a água fosse retirada (mesmo procedimento que se
faz para extrair o tucupi da mandioca, por meio do tipiti). Lembro-me da minha dificuldade em ir enrolando aquela rede,
até extrair o excesso de água.
Feito isso, ajudou-me a estender a rede
em uma vegetação rasteira, que se mantinha no fundo do nosso quintal, para
secar ao sol.
Ainda costumo ter redes em minha casa. Em dias de muito calor, mesmo com o ar condicionado ligado, a rede torna o
descanso mais... fresco. No entanto, quando necessário serem lavadas, já não
preciso fazer o “sacrifício” de outrora. Apenas coloco a rede em uma máquina de
lavar e, questão de menos de uma hora, a rede sai bem limpa... e quase seca.
Então,só colocar no varal e deixo que o sol faça o restante do trabalho.
Mas essas lembranças todas só me fazem reforçar como a educação dos nossos pais, apesar das "pressões" e "obrigações", eram até divertidas, e de como suas lições nos são válidas, sob todos os aspectos.
Chama a Mamãe.