À espera do tempo exacto...descuidei-me e...o branco foi desmaiando!...mas para compensar fui ao JARDIM da ROMICAS, bem longe do Bairro....
...e apanhei este gafanhoto depenando todas as folhas da roseira!
Apanhei, claro a foto da Romicas...
Era um homem solitário. Vivia sozinho, num quarto sombrio e acanhado da cidade. Todos os dias subia a calçada a passo, olhos fixos no chão, meditabundo. Por detrás de uma secretária passava os dias, escondido por entre uma pilha de papéis. Apesar do seu modo de ser introvertido, todos os companheiros de trabalho gostavam dele. Aquele sorriso brando, a ligeira vénia com que saudava os colaboradores, granjeavam-lhe simpatia. Engenheiro de profissão, nunca a sua voz se alterou, em acesa discussão com ninguém. Era cordato por natureza. Mas tinha um mistério. Todos os dias – todos os santos dias – depois da hora de encerramento do escritório, fechava-se num compartimento a sete - chaves. Foi assim, durante seis meses. Um dia, confidenciou a um amigo, o que tanto intrigava a todos. Num fim de tarde, convidou o companheiro de trabalho a visitar a sala onde se encerrava até ao cair da noite. E foi ali, que lhe revelou o seu sonho: construir um barco. Em cima de um estirador, repousavam réguas, esquadros, transferidores, compassos, lápis, borrachas e canetas. Além de revistas da especialidade. Debruçado sobre a prancha de madeira, com a ponta do lápis riscando sobre o papel, dava azo à sua imaginação. Depois, regressava ao quarto modesto, onde, pela internet, contactava o mundo. Foi assim que conheceu Regina, brasileira do Estado do Ceará. No início, trocaram apenas palavras de circunstância. Um dia, ela revelou-se-lhe e falou-lhe de amor. Incitava-o a ir ter com ela. Que o receberia de braços abertos e beijos ardentes. E aquele homem introvertido e solitário, via abrirem-se - lhe na vida dois caminhos: ficar na terra Lusa, agora que estava a um passo da reforma, ou viajar para os braços da sua amada. Numa noite mal dormida, teve um impulso: partir, levando na bagagem o desejo ambicionado; o esboço acabado do barco confortável que tinha projectado e queria agora mandar construir. E onde, com ela, passaria a viver, galgando as ondas da extensa costa do Brasil. A vertigem de uma gôndola da paixão e uma cabana. Um delírio de amor. A roçar as seis décadas e meia de vida, moveu influências para passar à reforma. Conseguiu. E um dia, com uma mala na mão, cheia de ilusões e de sonhos, partiu. Mas, rápidamente, aquela ode de desejo se desvaneceu. A Regina, era ainda uma adolescente insegura, muito mais nova que ele. Foi mútuo o desencanto. Pouco ou nada conviveram. Durante muitos meses, vagueou por terras de Vera Cruz. Ao telefone, confidenciava ao amigo que se sentia muito só, não conhecendo ninguém, num país que não era o seu. Voltou. Há dias, encontrei-o numa rua da cidade. Sempre o sorriso afável e cordato. Confidenciou-me, que agora vive num Lugar minúsculo, encravado entre montanhas, no interior de Portugal. Numa singela propriedade que tem, convive com as abelhas, o seu outro amor. De máscara e fumigador na mão, vai tratando dos cortiços e das colmeias, com um olhar vago, perdido de desencanto. A pensar, certamente, na utopia que foi aquele barco de um amor infeliz, que um dia naufragou irremediavelmente e para sempre, ao largo de Copacabana.
Olha Zé, gostei do discurso, catrino !!!