
Foi numa noite. Destas noites em que o sol se deita mais cedo,
para lá do dorso cinzento da esfinge austera do Moradal. O toque de recolher de
Outono. Uma humidade espessa, desce sobre a aldeia de Juncal do Campo. Ao
longe, a planície que dali se avista, foi engolida pela escuridão. Apenas o
cheiro da esteva queimada, a esgueirar-se pelas chaminés atarracadas do humilde
casario, são o aroma reconfortante para quem percorre as ruas empedradas e
vazias do povoado. É o perfume característico da Beira Baixa. Ali, no meio da
colina, um pálido clarão rompe a noite de breu. É a luz mortiça da Junta de Freguesia.
Por uma porta estreita entramos e, lá dentro, temos acesso a uma sala
desconfortável e fria. As paredes, estão forradas de fotografias de antigos
presidentes da Junta, de nó de gravata afinado e o semblante de circunstância
que a situação exigia. Afinal, o perpetuar da imagem para anos futuros. E uma
base de onde, em metal cromado, sobem três hastes para outras tantas bandeiras.
A bandeira verde da freguesia, povoada de motivos campesinos. A bandeira azul e
estrelada da União Europeia. E a bandeira portuguesa, em destaque, ladeada pelos
outros dois símbolos. Ao fundo, um pequeno gabinete, onde um homem magro, de
bigode fino, sentado a uma secretária, vai remexendo numa pilha de papéis, que
vai ferindo com um enorme carimbo, em batidas fortes e ritmadas. Ao lado, um
velho computador, que debita informações importantes, sobre a vida da freguesia
e é uma janela para o mundo. É com os dedos a percorrer o teclado, que o
funcionário vai facultando informações, que depois serão expostas numa vitrina
emoldurada por quadro de madeira bem visível, para conhecimento dos utentes. O
homem de que vos falo é o secretário da Junta. O computador, é o milagre da
tecnologia que assassinou o mata - borrão.
Na sala avantajada, várias cadeiras de assentos de napa
preta. É ali que os habitantes da aldeia, aguardam por qualquer certidão, ou,
até, pela consulta do médico. Foi lá, numa das minhas digressões campesinas,
que encontrei o João Prata. Vinha para falar com o secretário da Junta.
Cumprimentámo-nos com um formal aperto de mão e ele disparou-me sem respirar e
ar consternado: “… Então o Luíz Goes lá se foi …”. Fiquei perplexo. Achava a
afirmação descabida no contexto, mas o resto do seu monólogo, esclareceu-me: “…
sabe Pereira, eu e o Luíz Goes fomos amigos na guerra. Andámos os dois a
moirejar na Guiné. Ele era médico e eu era o motorista dele. Para onde ele ia,
eu também ia. Uma tarde, entre o Gabu e Bafatá, tivemos um furo no “Jeep”.
Mudei o pneu e uns quilómetros à frente, furou outro. Já não tinha mais pneus e
o Dr.Goes disse -me que era melhor prosseguirmos com o pneu furado, pois estava
a anoitecer. Confessei-lhe a minha preocupação, porque ia dar cabo da jante e o
Marques Pereira, que tinha à sua responsabilidade o material circulante da
Unidade e de péssimo feitio, não acharia graça nenhuma e iria despejar toda a
sua ira em cima de mim. O Luíz Goes manteve a opinião, afirmando que a
responsabilidade era dele. E foi com o pneu desfeito e a jante toda amassada,
que entrámos na Base. Por infelicidade, demos logo de caras com o Major, que
veio direito mim, naquele seu jeito ameaçador. Valeu então o médico, que me
defendeu e assumiu que tinha sido ele a dar a ordem de prosseguirmos viagem.
Por segundos, Marques Pereira ficou de olhos fixos em Luíz Goes, capaz de o
engolir vivo. Depois, virou-lhe as costas e, a vociferar, afastou-se. Então,
olhámos um para o outro e rimos. E com um aperto de mão, reconfirmámos a nossa
amizade em tempo de guerra.”
Depois, João Prata despediu-se, tragado pelas sombras da noite.
Mas não sem me dizer, que na sua carrinha de mercadorias que pelos anos de
fabrico já merecia estar em repouso, ainda tem uma velha cassete roufenha, com
o cantar de Luíz Goes, que por vezes vai ouvindo, na sua azáfama diária pela
região.
Luíz Goes, partiu. Mas, facilmente se percebe, que não só nas
tertúlias do trinado do Mondego é admirado e estimado. Naquela noite, o médico
de Coimbra foi lembrado pela gente simples da Beira - Baixa. Naquele momento, não
com o estatuto de grande intérprete do fado coimbrão. Mas à beira do estatuto
de herói.
Quito Pereira