15-11-1980
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MEILLEURS VOEUX!
PARABÉNS!
15-11-1980
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MEILLEURS VOEUX!
PARABÉNS!
14-11-1945
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
"MIMA"
13-11-1941
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
"MANITO"
11-11-1944
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
09-11-1941
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
08-11-1946
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
Marília Noronha nessa noite quase não dormiu.
Tinha descoberto na pequena pasta do seu marido uma sensual “lingerie” vermelha acabada de comprar. Ainda pendia dela, até, a etiqueta da loja! Era claro, para Marília, que essa seria a prenda que ele lhe iria oferecer no dia seguinte, data do seu 35º aniversário. As coisas no casamento não andavam a correr muito bem, desde há muito. Por isso aquela prenda entusiasmou-a. Talvez fosse o sinal de que a relação entre ambos se viesse a normalizar. De facto, o Felisberto Noronha, seu marido, era uma pessoa educada, meiga, nunca a tinha tratado mal. Mas ela sentia que o amor já se tinha esvaído. Todos os pretextos eram bons para ele se desculpar e adiar para o dia seguinte, qualquer tentativa dela para fazerem amor. Ela ainda gostava dele, apesar de tudo, mas achava que numa relação conjugal, ser boa pessoa, educado, meigo, carinhoso, não era tudo! Nem, porventura, seria o mais importante. Entendia que a relação sexual era indispensável. Mas apercebia-se que, em vez disso, o marido já quase não conseguia ocultar uma indisfarçada repugnância diante dos jogos de sedução e das carícias que ela lhe fazia, tentando os jogos preliminares e a consumação do acto de amor. - - - - - - Porém, a descoberta daquela prenda escondida, que ele em segredo lhe tinha comprado deixou-a eufórica! A relação conjugal iria voltar a ser normal! Manhã cedo, logo que ele foi para o trabalho, ela saiu de casa, foi ao cabeleireiro e esmerou-se em melhorar o seu visual. Cabelo, unhas, lábios, sobrancelhas, tudo foi retocado para o receber à noite o mais bonita possível. Ao anoitecer, pôs a mesa, com duas velas acesas, uma garrafa de champanhe a gelar no “frappé”, o CD “My Way” de Frank Sinatra a girar baixinho, e a TV ligada, para ir olhando distraidamente as notícias enquanto esperava pelo marido. Esperou e começou a enervar-se. O tempo passava e, como nos dias anteriores em que ele chegava a casa muito tarde, queixando-se de cansaço e de excesso de trabalho, o relógio corria e ele nunca mais aparecia para lhe dar os parabéns e oferecer-lhe a “lingerie” que ela bisbilhotara na sua pasta. Subitamente a TV interrompeu a emissão para transmitir em directo um pavoroso incêndio que acabava de deflagrar na Fábrica Cosmos, Lda, a firma onde ele trabalhava... Fixou os olhos, apurou os ouvidos, aumentou o som da televisão e reconheceu nas imagens o edifício fabril que ela tão bem conhecia. Observava, aflita e tensa, a azáfama dos bombeiros empoleirados nas suas escadas “magirus” derramando jactos de água sobre as labaredas que iam consumindo a fábrica. Roía as unhas tão criteriosamente tratadas pela “manicure”, enquanto devorava as imagens terríficas do pequeno écran... A repórter da TV de serviço no local informou que haviam sido localizadas duas pessoas com vida dentro do edifício, apanhadas desprevenidas pelo inesperado e repentino incêndio, que os bombeiros tentavam resgatar. Minutos depois a locutora entrevistou o chefe dos bombeiros que sossegou os telespectadores, dizendo que as tais duas pessoas já estavam livres de perigo. Certamente aterrorizadas pela morte iminente, aduziu o bombeiro, as vítimas foram encontradas fortemente abraçadas uma à outra. Marília acalmou, quando o bombeiro as identificou. Uma delas era o seu marido e estava bem. A câmara rodou e filmou as vítimas deitadas cada uma em sua maca para serem transportadas para o Hospital. Uma das vítimas, vestia calções de cabedal com tachas prateadas e camisa de alças também em cabedal, donde pendiam grossas correntes metálicas. Um chicote negro ainda lhe pendia inerte da mão. Meio chamuscado... O seu nome, Carlos da Silva. A outra das duas vítimas, vestia uma delicada e sensual "lingerie" vermelha com folhos. O seu nome, disse a repórter, era Felisberto Noronha...
Rui Felício
O João é o Senhor João – um tratamento cerimonioso. Podia não
ser assim, dos anos que nos conhecemos e das vezes sem conta que entro na sua papelaria
que vende jornais mais honestos que outros, revistas de vidas cor – de - rosa e
outras mentiras pardas. E o João – o Senhor João – lá está atrás do balcão, na
sua estatura mediana, uns calções pelo joelho que o tempo ainda parece de
lazer. No rosto, uma viseira transparente que não lhe esconde a calvice, na
tentativa de se resguardar de um vírus que dizem que é chinês. Em cima do
balcão, uma enorme garrafa de um liquido azul que serve para desinfetar as mãos
e que quase dá para o cliente tomar banho de imersão. Mas o João – o Senhor
João - não facilita. Lá me vai dizendo que nunca foi muito saudável e que já
esteve três longos meses internado num hospital deste barlavento algarvio.
Agora, recuperado das maleitas, dobra-se vagarosamente sobre balcão e com a
ponta da esferográfica vai anotando todos os jornais e revistas que uma
carrinha apressada lhe atira para dentro da loja, atados em molho com uma
guita. Tudo feito sem pressas, mesmo que o cliente enfadado espere a vez de
pagar o seu jornal favorito. Assiste razão ao João – o Senhor João – que tem
que conferir a mercadoria com minúcia, que a margem de lucro é muito estreita.
Para mais, a idade já não lhe permite grandes correrias. Por vezes, naquela
lojinha de bairro, assiste-se ao render da guarda. A Filipa, filha do João – o
Senhor João – rende o pai ao balcão no atendimento dos clientes – poucos – que
entram. É afável e eficiente. Ao contrário da grande parte dos algarvios, é
reservada e fala pouco ou nada. Mas cordata e simpática se interrogada deste ou
aquele artigo que tem numa prateleira. Tal como o pai, não é de grandes
discursos e nem sequer dá para trocar impressões deste descalabro social que se
pressente. De manhã, todas as santas manhãs, o João - o Senhor João - abre o
seu estabelecimento, na esperança das moedas que tilintem na gaveta da sua
caixa registadora. Por mim, e enquanto por aqui estiver, ajudá-lo-ei a
sobreviver, sendo sempre generoso nas minhas compras matinais. Mesmo num
diálogo de silêncios que mantemos há tantos anos, temos uma empatia mútua. E um
dia, quando o João – o Senhor João – depuser as armas e gozar a merecida
reforma, a sua única filha e herdeira lá estará, para todos os dias rodar a
chave na fechadura de uma loja que vende notícias verdadeiras ou falsas, coloridos
livros infantis, esferográficas, tubos de cola e ilusões.
Que assim seja.
Kito Pereira
Cidade Lagos, 9 de Outubro de 2020