segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OLHA PARA O QUE EU FAÇO NÃO OUÇAS O QUE EU DIGO

 Olha para o que eu faço e não ouças o que eu digo

Ensinar pelo exemplo é a forma de pedagogia mais perfeita que pode existir. A sobrevivência das espécies superiores depende pouco do instinto e muito da aprendizagem mais ou menos breve feita com o exemplo dos progenitores. Quando nada mais há a aprender, cada um abandona o ninho e a sua vida terá tanto mais sucesso quanto melhor foi a qualidade da aprendizagem.

Entre nós, educar pela palavra ou educar pelo exemplo são os limites da equação que se colocam a pais e educadores, formais ou informais.

Naquele casal, ambos eram humildes, gente simples e trabalhadora, sendo que a Celeste do Lopo tinha uma visão do mundo muito mais imediata, gostando da vida pelo simples prazer de poder acordar no dia seguinte, enquanto que o seu marido, José, gostava da vida pela vontade e desafio de poder mexer nos dias vindouros, recusando-se a ser um títere nas mãos da vontade dos outros. Por isso, não quis patrão e fazia sozinho as pequenas obras que outros lhe encomendavam, fosse a construir muros, fosse a trabalhar em perpianho as fachadas das casas dos ricos.

Num fim de tarde, depois da merenda de bacalhau frito e broa, sentados no banco de matar os porcos, debaixo da ramada, a Celeste largou a boa nova:

“Estou de bebé,” disse, ofuscando o rosto do marido com a alegria que lhe dançava nos olhos, “já tenho um atraso de dois meses e na quinta-feira fui ao doutor Cardoso, que mo confirmou.”

Para o Zé Pedreiro, estas palavras tocaram-no e mudaram a sua ideia do mundo, tal como a barragem muda o curso do rio.

Agora era responsável não por um, mas por dois seres humanos, uma ideia que o fez albergar um mundo novo, de esperanças e certezas. Mesmo que fossem sonhos lampos, toda a coleção de desejos desconexos, de angústia de pobre e de incertezas do amanhã desapareciam com a novidade. Aquela criança era a certeza mais palpável que se levantava entre eles e a pobreza, uma vez que a alegria não conhece bolsos e tanta felicidade pode vir ao rico como ao pobre.

Debruçou-se no colo da mulher e beijou-o, encostando o ouvido um pouco acima do umbigo: “Já o ouço, já o ouço!”

“Deixa-te de maluqueiras. Ninguém consegue ouvi-lo ainda tão pequenino!”

“Mas é claro que o ouço. E ele ouve-me, de certeza.”

Então, começou a contar-lhe uma história antiga, de harmonia e de justiça. Enfim, uma história diferente da condição em que viviam, mas pela qual ele lutaria para que o seu filho nela pudesse viver. No nascimento e na morte todos somos iguais, mas, no fim de tudo, cada um leva consigo a carrada moral que juntou em vida. Agora, na chegada, o filho do rico e do pobre são iguais: não trazem nada, pelo que ambos podem amealhar em si toda a grandeza ou miséria humana. Não seria o dinheiro, mas a retidão, que faria do pequeno ser um Homem a sério. Sabia que depois dele nada mais seria como agora, sabia que faria do filho um homem bom, que ajeitaria o mundo nos pilares da honestidade e das coisas justas. Decidiu do mesmo modo ser um exemplo e educá-lo, mostrando-lhe o mundo por obras e não por palavras.


Tão envolvido no sonho, não se apercebeu de que sonhava em voz alta e a mulher bebia-lhe as palavras, umas vezes emocionada e, outras, incrédula. A emoção vinha do amor e da admiração; a incredulidade vinha da realidade dos dias, da pobreza e das jornas de trabalho suado que pouco mais lhe davam do que o pão que guardava na tábua presa na trave por dois arames, para que os ratos lhe não chegassem.

“Ó homem, como queres tu que ele seja uma pessoa assim? Não tens instrução nem escola para lhe deixares de herança!”

“Deixa, mulher, não tenho escola, mas sei ler e ajuizar o mundo. Não preciso de falar muito nem de escrever melhor. Basta ser um homem bom, que ele ainda o será mais. E naquele livrinho que temos por cima da tábua do pão li uma frase de um Santo, queres ouvir?”

A boa esposa admirava esta bondade natural do seu marido e, envolvendo num laço de ternura a sua resposta, anuiu: “Gostava muito, homem, gostava muito.”

Subindo ao banco, o Zé Pedreiro pegou no pequeno livro sobre vidas de santos e prendeu-se no capítulo de S. Francisco, onde tinha marcado, com um amor-perfeito seco, a página que o orientava. Com a dificuldade de uma criança da primária e com a alma de um “lectore” leu: «Ide pelo mundo anunciar a Paz e o Bem e, se preciso for, até com palavras.»

Por Professor Antonino Silva


1 comentário: