MILITA
28-02-1946
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
MILITA
28-02-1946
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
BOBBYZÉ
26-02-1948
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES ! PARABÉNS!
25-02-1961
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
MARICOTA
24-02- 1948
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES! PARABÉNS!
23-02-1945
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
23-02-1962
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
IR À GUERRA …
Um dia parti e um dia voltei. Voltei da guerra e vim são e
salvo. Agora regressei de novo à guerra. Tenho a desvantagem de não conhecer o
inimigo e desconfio em cada esquina do meu semelhante que se cruza comigo. Tento
cumprir as instruções governamentais de ficar em casa no meu estatuto de
reformado. Mas as necessidades mais básicas como a alimentação e medicamentos,
fazem-me pisar o campo de batalha. Tal como os lobos que descem ao povoado na
procura de comida, é preciso partir. Como outrora eu ajustava as cartucheiras,
a ração de combate e a metralhadora, agora ajusto a máscara, ponho os óculos na
cara e calço umas luvas descartáveis. Meto o carro no subterrâneo do
Supermercado. Entro no elevador e toco no botão com a ponta da chave do
automóvel. Depois, pego num carrinho para acomodar as compras e começa o
pesadelo. Mas onde raio encontro a embalagem da manteiga magra? Eu ia jurar que
os ovos estavam ali !!!
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar um
pacote de arroz “Carolino” ?
- Olhe, o Senhor vai por este corredor, depois vira à
esquerda, depois à direita e 10 metros à frente, outra vez do lado esquerdo
encontra a prateleira dos “arrozes”.
E o caminhante que sou eu, lá vai a empurrar o carro das
compras com cara de penitência. Maldita lista de compras que nunca mais acaba,
ainda me falta a prateleira das hortaliças mas eu desconfio que sei onde é e
até acertei, estou orgulhoso comigo mesmo.
- Óh menina …desculpe … onde posso pesar esta curjete ?
- O Senhor esta confundido, isso não é uma curjete é um
pepino …
E agora … como encontrar os sumos de laranja do Algarve?
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar os
sumos de laranja do Algarve?
- Óh Senhor … olhe-os aí mesmo em frente do seu nariz…
Resmungo, ajeito a
máscara no nariz e prossigo a Via Sacra. Caraças, que isto agora vai complicar
– se ainda mais. Eu sei lá onde é que estão os rolos de papel higiénico e o
detergente para a máquina de lavar louça???!!!.
- Óh menina … desculpe … onde é que eu posso encontrar o
papel higiénico?
- Olhe, aqui não de certeza, que o Senhor que está encostado
à vitrina dos congelados …
- Então e o detergente da loiça ? …
- Olhe é exatamente no sítio oposto, tem que ir ao outro lado
do supermercado...
E isto tem tudo para continuar a correr mal e acho que nem
com uma bússola encontro a lixivia. Admito que estou esgotado, levo o carro das
compras numa correria, pago a mercadoria à pressa à menina vestida de verde que
é muito simpática e desço ao subterrâneo na procura do meu meio de transporte.
Atiro com as compras para o porta – bagagens e confiro o papel amarrotado que
tiro do fundo do bolso das calças e que me foi dado em casa e … upssss …
esqueci -me dos iogurtes e do queijo fatiado !!!
Kito Pereira
JEAN-YVES SOGUET
20-02-1947
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
JOYEUX ANNIVERSAIRE!
PARABÉNS!
Também gosto de um dia cinzento. Daqueles em que não preciso de sair à rua, não preciso de olhar constantemente os ponteiros do relógio, nem de me preocupar com o pão fresco... Como é bom ter o lume aceso, ter pó de café para pôr na cafeteira que fumega, pão endurecido para espetar no garfo e torrar ao calor das brasas!
Agora, por falta de agilidade das mãos, já não dá para fazer
mais umas luvas de cinco agulhas para oferecer aos netinhos, nem para tricotar
uma nova camisola; também já não tenho a tia para me levar ao tear, senão ia
cortar tiras de tanta roupa gasta... Pronto, este dia cinzento vai ser
deliciosamente vivido! Em vez de lareira, tenho braseira eléctrica no estrado
da camilha, a cafeteira expresso espuma a chávena de café, a torradeira solta torradas
amarelas e quentinhas e eu, se já não seguro tão bem como antes a caneta, posso
teclar as palavras no computador ou folhear aquele livro que tanto gosto de
ler... Posso encostar a testa à vidraça e, de chávena, na mão a perfumar o ar,
posso olhar aquele tempo de menina a correr para a escola de saquinho de livros
a tiracolo sobre a bata branca e um caldeirinho de brasas suspenso das mãos.
Aquele caldeirinho feito duma grande lata de atum presa por um arame aos dois
furinhos que o tio lhe fizera... Também posso ver os perus da ti Laura a correr
ao meu encontro para me picarem e eu a correr a chamar-lhes feios...; Ver a ti
Zefa a descer as escaleiras com a vianda pronta para dar ao marrano guardado na
cortelha... Ai!, como é bom viver este meu dia cinzento, de chuva e de
lembranças!...
Georgina Ferro
15-02-1947
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
A CASA
Na casa em forma de coração não há teto nem chão.
O vento vindo de Espanha passa,
Não há janela nem vidraça.
A parede fecha-se do lado norte
Qual barreira contra o vento forte.
Na casa em forma de coração não teto nem chão.
A varanda abre-se ao sol e ao sul
Mostrando os campos verdes e o paúl.
A oeste ergue-se o granito imponente
Nas paredes escorrem lendas da gente.
Na casa em forma de coração não há teto nem chão.
Há muito esvoaçaram cortinas,
Noites passaram e manhãs de neblinas,
Na pedra ficaram gravados tempos e memórias
Que vou desfiando e acrescentando estórias.
Na casa em forma de coração não há teto nem chão!
Yasmine Koute(Guilhermina Leão)
CARLOS COSTA FREIRE
12-02-1949
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
O TI´ JOÃO …
- Amanhã, no Ladoeiro, vamos entrar a todo o gás e arrasamos
com a concorrência …
E eu, já na soleira da porta, lá lhe ia dizendo:
- Pois amigo João, com a “Dança da Tranca” vamos rebentar com
eles …
Então ele ria e eu a acenar - lhe partia …
Quito Pereira
09-02-1945
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
O amola tesouras
Hoje está um vendaval e chuvada que mais parecem de plena invernia!
E lá vou eu para os tempos de antanho e para aquela aldeia raiana da Beira Alta onde havia muito cansaço, preocupação em granjear o pão de cada dia, tarefas intermináveis ao longo de todo o ano, tendo sempre o seu fulcro na cozinha, ao redor da lareira.
Num dia assim, como o de hoje, ventoso e a acarretar cordas grossas de chuva, o capador, ou seja o amola-tesouras, para descanso dos garotos que fugiam dele a sete-pés, sabe-se lá porquê, parou de andar rua abaixo rua acima com o carrinho de madeira e rodas de bicicleta, onde acarretava a roda de afiar as facas para as matanças.
Enfiou-se na gruta da árvore frondosa, que já não existe, mas que eu juro a pés-juntos existia a uns metros da entrada principal da igreja, onde poisou o seu banco de meia lua tripé, tapou-se com uma saca de serapilheira, para não ficar “arreganhado”, (é que ainda não havia plástico para o proteger), e vá de “curar” as varetas dos muitos guarda-chuvas que se haviam voltado e entortado com o vento, ou fazer delas, se já não tivessem conserto, um jogo de cinco agulhas para fazer as meias de algodão.
O ti João Reino, o meu vizinho de coração de oiro, não se conteve e foi chamá-lo para debaixo da "alpendrada" da lenha, pois sempre seria menos desconfortável.
Depois foi um corropio de gente, garotas, mulheres, homens..., nada de rapazitos, a esses ninguém lhes punha a vista em cima, enquanto o capador andasse por ali!. Vinham trazer-lhe mais e mais serviço, é que, para além de capador, amolador, consertador de guarda-chuvas também “gateava” peças de loiça, que por serem muito caras, não se podiam deitar fora só por terem uma ou duas rachadelas: ora eram travessas do serviço, ou o penico da mesinha de cabeceira, a caneca do vinho, o prato grande do arroz doce...que ele costurava com arame depois de ajustar bem cada caco, com cola que apanhava do tonco de algumas árvores.
E, nessa noite não arredou pé lá do curral! Para maior castigo os caminhos ficaram intransitáveis e, na maior parte lembravam mais pequenos ribeiros do que caminhos de regresso a casa.
Ai, ai!, estou a mentir, porque ele teve de se abrigar na loja das vacas, depois de ter ajudado a cavar uma vala funda para a água correr à volta das paredes da casa....
Georgina Ferro
De é: Branco, Prates, Brás, Diogo, Hipólito e Azeredo
à frente: Melo, Pacheco Nobre, Garção, Nana e Bentes
Só ficava o furo
O que têm a ver as caminhadas, a tragédia de Beirute e o blog de viagens do Sapo?
Li isto algures e não conseguirei citar, mas a ideia principal era esta: nas redes sociais (destacando-se o facebook), a população mundial que partilha esta rede está apenas a quatro cliques de amizade. Quer isto dizer que, quando consultamos os amigos de um amigo nosso e depois continuamos e fazer o mesmo a cada um dos amigos desse amigo do nosso amigo, ao fim de quatro pesquisas teríamos descoberto todos os usuários desta rede. Porém, atente-se, seria necessário voltar atrás e fazer sempre o mesmo por cada pessoa, uma vez que as redes de amigos se constituem em expoente variável, sendo muitos deles elevados a cinco mil (o número máximo de amigos). Assustador, não é? Contudo, como o povo diz, as palavras são como as cerejas e isto anda tudo ligado.
Se dúvidas houvesse, os episódios vêm confirmar esta visão metassistémica do universo sem necessidade de entrarmos em fatalismos ou teorias da borboleta. Este, em particular, é muito recente e relaciona-se com as atividades de caminhada que tanto me agradam e tantos amigos me granjearam.
A barragem do Varosa, em Lamego, tornou-se famosa recentemente nos grupos de caminhadas depois de um artigo no blog de viagens do Sapo, porque apresenta, na margem esquerda, já a jusante do paredão, uma escada mítica, com 360 degraus, que confere ao cenário um foco de atração para caminheiros, e não só. A barragem não é muito extensa nem muito alta (tem 213 metros de comprimento no coroamento e 76 metros de altura acima do terreno natural), mas surge encaixada numa garganta que lhe dá um fascínio natural, principalmente se a observarmos do leito do rio, do lado de Sande. Na década de 30 tinha-se iniciado a construção e, apesar de em 1936 já estar em funcionamento, só em 1976 é que a EDP começou a tirar o máximo proveito, depois da construção dos tubos adutores e da central elétrica adjacente.
Ao comentar os planos de abordagem a este espaço numa caminhada futura, um ancião de 96 anos, que me ouvia, recordou-se da sua contribuição para a construção, ainda rapaz imberbe.
Os subempreiteiros da obra não eram, propriamente, pessoas de escrúpulos e, em busca de um maior lucro, procuravam expedientes, sendo o mais recorrente a procura de explosivos mais baratos. Como o controlo estatal era remoto, por cada tonelada de pólvora legalmente adquirida, compravam outra tanta em mercados paralelos, a preços muito mais acessíveis. Contudo, havia sempre um risco enorme de a GNR descobrir este tipo de tráfico e levar de cana fornecedores e compradores.
Ora o pai desse jovem tinha um caseiro na Quinta das Torres que juntava aos rendimentos da terra os lucros do seu engenhoso sistema de fazer pólvora negra. Em vez de usar o nitrato de amónia para adubos, como seria de esperar, preferia usá-lo para misturar carvão moído e outros produtos acessíveis para fazer pólvora, que vendia a bom preço para a barragem. Esse caseiro contratava o filho do dono da quinta para levar, semanalmente, um lote de 25 quilos e, juntamente com o que ele levaria, dava para fornecer a meia centena de quilos que tinha acordado com os subempreiteiros. Esse filho do patrão é agora a pessoa que me conta a história.
De Moimentinha até Balsemão, os carregos tinham de ser discretamente transportados, às costas, dentro de taleigas de farinha, envoltas em sacos de serapilheira. Aproveitam-se os dias de mercado (as quintas-feiras) para, disfarçadamente, seguirem como mercadores de batatas ou algo parecido, por caminhos escusos e atravessando o rio a vau. Mas as coisas podiam correr mal, se os guardas se mostrassem mais curiosos ou desconfiados do que o costume. E isso atormentava o cachopo, que questionava o João Luís sobre esse risco e como conseguiriam não bater com os costados na prisão.
Então, muito pausadamente, o adulto explicava-lhe que cada saco tinha um buraco bem largo no fundo e se a guarda se aproximasse, bastaria puxar um atilho, que ele se abriria, deixando cair o pó à medida que avançavam. Assim, a prova ia com o vento.
E terminava a preleção com uma frase lapidar: - E reza a Deus para que o guarda não esteja a fumar!
Antonino Silva
01-02-1947
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
***
HOJE FAÇO ANOS
Não sei porquê, ou talvez por estar há 11 meses em confinamento, lembrei-me da minha primeira PAIXÃO:
LAU
31-01-1945
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
ERA UMA VEZ UM COLÉGIO
Era uma vez um colégio. Um colégio na bela Coimbra. Ali,
passando os Arcos do Jardim, subíamos a Rua de Tomar e, do lado esquerdo
daquela artéria, entrava-se por um portão largo para uma casa de traça
escorreita e de dois andares. Outrora casa de habitação, o edifício tinha
subido de estatuto e era agora forrado de um nome aristocrático – Dom João de
Castro. O Colégio era composto por professores e alunos. Os professores –
alguns – refugiados de perseguição política e do doutor Salazar, que lhes não
permitia lecionar no ensino público. E era num colégio particular que os
docentes angariavam a sua subsistência. Entre eles, Teles Grilo e Fernando
Queiroz.
Dos alunos, era mais difícil falar. Nunca um aluno aplicado,
dedicado às matérias e civilizado, foi objeto de notícia. E desses, o Dom João
de Castro tinha um leque razoável deles. E também havia os outros. Faltosos,
cábulas, incultos, irritantes e truculentos. E começar a pensar neles é como
quem está a desfiar as Contas de um Rosário. Um tal Queiroz, que dava ares de
intelectual e que trazia numa pasta misturado com compêndios maltratados,
revistas de mulheres nuas de duvidoso gosto. O
Lourenço, que tinha uma vaga ideia que a Revolução Francesa tinha sido uma
guerra muito sangrenta. O Toni, que era especialista em arraiais de pancadaria
nas noites de Coimbra. E um tal Cunha, protagonista de uma rocambolesca cena na
pequena esquadra de polícia que havia ao cimo da Rua Alexandre Herculano, junto
ao colégio das raparigas e com o mesmo nome. Um piropo infeliz a uma jovem
donzela pelo tal Cunha, e da queixa que a aluna logo fez ao sentinela da
esquadra, valeu que viesse um piquete de guardas junto à Associação Cristã da
Mocidade uns metros abaixo e que um grupo de nós – incluindo eu – fossemos
todos a gancho para a esquadra.
Alguém foi a correr dizer ao Dr. Teles Grilo que um grupo de
alunos estavam detidos na Esquadra da Alexandre Herculano. E ele, que apesar do
seu feitio meio conflituoso era um bom homem, lá foi com a sua gabardina até
aos pés e a mortalha do cigarro pendurada ao canto dos lábios, tentar resolver
o problema. Entrou de supetão na esquadra, deu de caras comigo e de dedo à
frente do meu nariz acusou – me:
- Óh miúdo andas sempre metido nestas confusões !!!
Eu, que nunca tinha brigado com ninguém ou desconsiderado
quem quer que fosse.
Com falinhas mansas, o Grilo tentava convencer o Chefe da
esquadra:
- Sabe Senhor Chefe … isto é gente nova … é preciso termos
alguma condescendência … eu quando chegar ao colégio chamo – os à pedra …
Por essa altura, o Cunha que tinha sido o responsável pelo
incidente e era conflituoso que baste, fungava pelo nariz parecia um touro
enraivecido. O que é certo que o Dr. Grilo conseguiu os seus intentos. Tivemos ordem
de despejo. Saiamos em rebanho e o truculento Cunha que liderava a manada, saiu
primeiro e foi barrado à saída pela sentinela que não sabia da súbita decisão
do Chefe da esquadra. E perguntou de maus modos:
- Onde é que o Senhor pensa que vai?
E o Cunha não está com meias medidas – dá um estalo no
polícia …
Assim como saímos, voltámos a entrar na esquadra. Mais que
uma cena da vida real, aquilo parecia um filme de desenhos animados. Mais
negociações, o Dr. Teles Grilo agastado a desfazer-se em mil desculpas até que
o chefe da esquadra ditou a douta sentença:
- Podem ir embora mas ( e apontou para o Cunha) … aquele
senhor fica cá.
E ficou. Detido, se calhar metido num calabouço e, num
pequeno exercício de imaginação, estou a vê-lo a comer ao almoço e de colher na
mão, feijão carrapato numa marmita de lata para lhe arrefecer os ânimos ...
Kito Pereira
CARLOS ALBERTO SABINO DE CARVALHO
Falecimento ontem, dia 25, tendo sido cremado no Complexo
Funerário de Taveiro
Devido ao confinamento só agora soubemos desta triste notícia.
Estava já internado com COVID há dias no Hospital.
Encontro de Gerações envia a toda a familia sentidos pêsames.
Em busca do que falta
Por mor da segurança e medo daquilo que não dominamos e desconhecemos, estamos capazes de abdicar de uma boa dose da nossa liberdade. Muitos acederam à liberdade como um direito adquirido pelo qual não houve mister de lutar. Faz parte do nosso entendimento que aquilo que não nos custou a ganhar também não custa tanto a perder e é por isso que aceitamos um certo compromisso entre o sermos livres e o estarmos seguros.
Olhando para trás, revejo outras formas de liberdade das quais abdiquei por causa de recompensas imediatas de bem-estar. Éramos ganapos que saíamos em bando para a Quinta da Livração, para o Sr. do Calvário ou para o Monte a guardar as ovelhas que, em rebanho, se iam juntando nos locais de pasto e por aí passariam o dia, fizesse frio ou calor, estivesse sol ou chuva.
Enquanto as ovelhas pastavam e pensativas ruminavam, o que haveríamos nós de fazer? Havia que jogar à bola – um dos filhos do Dominguinhos tinha uma bola de catchu, roçada e quase com o pipo à mostra, que fazia as fantasias da cachopada – rolar pneus ou, ainda, enrolar alguma barba de milho, com a qual fazíamos ares impantes de manganões, com cigarros na beira da boca. Às vezes aprimorávamos os artifícios do fumo e fazíamos cachimbos de cana e canudos de esferográficas, que em tudo se pareciam ao cachimbo do Pai Tomás.
As mães não gostavam muito dos jogos de bola ou de corridas de pneus nas leiras, porque cada um de nós só tinha umas botas ou uns sapatos a cote e se fossem esbeiçados ou se as solas saltassem havia que os mandar para o sapateiro – quando havia dinheiro – ou dar uns pontos com arames, o que era o mais frequente. Por outro lado, neste segundo caso, a nossa tristeza era maior, porque, com pontos de arame nos sapatos, éramos proibidos de jogar, para não furarmos a bola na primeira trivela que disparássemos. A opção era jogarmos descalços, mas os danos nos dedos grandes eram consideráveis.
Longe de casa, tínhamos momentos altos no momento da merenda – nome pomposo que dávamos ao que seria o almoço. Era mais eficaz dar-lhe o nome de merenda, porque esta é sempre possível de partilhar, enquanto que o almoço é uma refeição mais egoísta, que cada um costuma comer do seu prato. Por isso mesmo, tudo o que se comia fora de casa era ‘a merenda’ – como que por antonomásia – e com esse nome sabia muito melhor. Merendar era muito mais divertido e livre do que almoçar, pois todos comiam de tudo e do que todos levavam. Provavam-se coisas que em casa não havia e amiúde se trocavam sardinhas por sandes de geleia e sandes de carne gorda por pão com marmelada. Ninguém perdia e todos ganhavam.
Mas o ponto alto dos dias de fim de verão era a caça dos cachaporros. Não me perguntem qual será o nome verdadeiro, mas posso atestar-vos, depois de aturada investigação, que são uma espécie de tubérculos com o formato das trufas brancas que nascem nas raízes de uma planta da família das apiáceas (aipo, salsa, cenoura, cherovia, umbelífera ou cicuta, por exemplo). O nome poderá ter a ver com o feminino cachaporra, um porrete ou cacete para bater. Contudo, esta incerteza quanto à existência ou não do termo, não tira nada à felicidade de, após escavarmos cerca de um palmo, encontrarmos o tal cachaporro de tamanho variável. Alguns eram do tamanho de uma avelã, mas havia outros maiores do que uma batata da semente, quase do tamanho de um nabo. O sabor era agridoce e só se comia depois de rasparmos a casca com uma pedra ou um canivete. Tinham um aspeto barroco e irregular e comíamo-los crus.
Em casa, as mães avisavam para termos muito cuidado e não comermos demasiados, pois podiam fazer mal. Aliás, lembro-me de a minha mãe lhes chamar “comida de sapos”, não sei porquê. A sabedoria que se herdava deveria saber que, muito provavelmente, sendo uma planta da mesma família que a cicuta, haveria por ali alguma toxina de que não conviria abusar. Desconheço a razão, tal como desconhecia na altura. Essa ignorância feliz dava-lhe todo o sabor.
Podia agora alargar a lista dos marcadores de felicidade e tamanha liberdade. Poderia falar da ida às sanchas, da apanha do rosmaninho, dos primeiros revólveres com fulminantes e dos arcos de flechas feitos com vergas de castanho e canas de foguetes. Podia, mas não o farei, pois cada um deles é uma marca indelével de tamanha liberdade que nunca precisou, na altura, de ser trocada pela segurança. Não nos sentíamos inseguros, por isso a felicidade media-se na liberdade que tínhamos. E como éramos livres!
O tempo passou e cada um de nós pediu ao tempo segurança. Segurança nos estudos, nas relações, na profissão e na família. Por cada bocadinho de segurança que o tempo nos deu, levou-nos outro tanto de liberdade e não vale a pena pedir ao tempo que no-la devolva, porque ele já lá vai e não olha para trás.
Texto do Professor Antonino Silva