05-06-1946
Nesta data especial...
"Encontro de Gerações" deseja
MUITAS FELICIDADES!
PARABÉNS!
05-06-1946
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A CARECA DO SÁ …
Em África, bebi muitos cálices de fel. A guerra, a doença e a
saudade, faziam parte do quotidiano de cada um de nós, dos que lá mourejavam
sem sentido, pela teimosia absurda de Lisboa. Porém, a camaradagem, o espírito
de entreajuda e a amizade, ajudavam a digerir aquele caldo de vinagre que nos
era imposto. E, na amizade, incluo as patifarias com que nos brindávamos uns
aos outros. Afinal, a única forma de afivelarmos no rosto um sorriso ou até uma
sonora gargalhada. E são esses momentos que prefiro recordar, com quem está
numa esplanada de praia, a beber em pequenos tragos, um cálice de Licor Beirão.
Avancemos pois. O homem tinha um nome simples e pequeno - chama-se Sá.
Apareceu-nos lá um dia vindo de Portugal, de mochila às costas, para iniciar a
sua campanha militar. Logo de início se percebeu que era vaidoso. Cultivava o
seu ego e era vê-lo horas ao espelho, a mirar-se e a passar o pente pelo
cabelo. E nós de lado, deitados em cima das nossas camas de sobrancelha
franzida, a pensar na melhor forma de lhe sabotar as peneiras. E foi o seu
feitio crédulo, o mote para mais uma pirataria. Um dia, quando o Sá penteava
pela milésima vez o cabelo e olhava o espelho pendurado num armário, o Pinto
disse-lhe:
- Óh Sá, tu estás a ficar careca, pá !!!.
Combinados uns com os
outros, nós confirmávamos a coroa de padre bem redondinha, que o homem tinha bem
à vista. Foi um drama! A partir daí, o Sá torcia-se todo, tentando com dois
espelhos, ver a parte traseira da sua luminosa cabeça. Na verdade, não havia
qualquer ausência de pilosidade. Mas a mentira, repetida tantas vezes, surtiu
efeito. Desesperado, procurou ajuda no enfermeiro. Debalde. O Azevedo só
percebia de ligaduras e quando dava injeções, espetava a agulha no mínimo,
quatro vezes - .uma carnificina !!!. De cabelos, percebia pouco ou nada. O
Amorim, que dava uns jeitos de barbeiro, também não tinha o elixir mágico que
devolvesse a alegria ao pobre Sá. Foi então que alguém lhe indicou o Alferes
Paulo, transmontano meio louco, que era o responsável pelo parque de viaturas do
quartel. O Sá, correu então para o seu salvador e da oficina trouxe a receita
que teria utilizar meticulosamente todos os dias de manhã. Esfregar uma pequena
porção de massa - consistente no couro cabeludo. E à noite lavar bem a cabeça,
antes de se deitar. Esperançado, o infeliz assim fez. Mas como Deus às vezes é
justo, quem sofreu fomos nós, os mentores da brincadeira, todos os dias no
refeitório a cheirar aquela pasta acre e luzidia a brilhar no cabelo do Sá. Há
tempos, depois de quatro décadas do regresso de Canjadude, encontrámo-nos num
almoço de confraternização militar. Sempre a mesma pose. Sempre a mesma
vaidade. Mas não cheirava a massa - consistente. Cheirava a água – de - colónia
barata de supermercado. Um enjôo !!! Nós os nove, que estávamos à volta daquela
mesa e que por coincidência tínhamos colaborado na patifaria, de novo fomos
penalizados pelos nossos pecados. Realmente, Deus às vezes é justo ...
Kito Pereira
01-06-1990
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01-06-1990
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28-05-1936
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28-05-1049
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27-05-1946
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A MULA …
Era uma vez uma mula. Gorda e lustrosa assentou arrais aqui,
num quintal vizinho. Foi o Tozé Gouveia que a trouxe presa por uma corda.
Quando a vi simpatizei logo com o animal. Tem um olhar doce, enquanto lhe vou
fazendo festas no focinho e ela, de agradecimento, zurra que até parece o
timbre de voz do Frank Sinatra, salvas as devidas proporções. Mal se apanhou no
quintal atapetado de erva fresca, meteu o corta - erva no chão e começou a
comer desalmadamente. Não de fome, mas de gula. A alegria era tanta que se
urinou toda, com um jacto mictório que mais parecia a Fontana di Trevi, em Roma.
Outra vez salvas as devidas proporções. O Tozé, de olhos arregalados a coçar o
cocuruto do boné que trazia na cabeça, via a mula a limpar erva à velocidade do
TGV e começou a ficar incomodado. É que o quintal não era dele e a bicha era
pouca dada a cerimónias. Depois ameaçou que lhe partia dois dentes com um
paralelepípedo, para depois se rir com a minha cara de inocente que até estava
a acreditar. O Tozé é um bem - disposto da vida. Temos uma relação de
amizade e o meu amigo tem um restaurante – a NAVE - onde se come muito bem
e faz um “Cozido à Portuguesa” aos domingos de fazer rezar o mais ateu:
- TóZé, hoje quero comer uma coisa ligeira … pode ser umas
batatas fritas e uma omeleta …
- E o Senhor Pereira deseja a omeleta feita de preferência
com ovos ?
Mas hoje quem brincou fui eu. A saborear uma sopa de grão com
couves, atirei-lhe muito sério e um ar preocupado:
- Tozé, acho que te roubaram a mula …
O homem, se não tivesse uma barba cerrada, eu diria que ficou
pálido e quase deixou cair ao chão a bandeja dos grelhados …
- Mas porque é que diz isso?
- Fácil … não a ouvi zurrar …
- Então faça-me um
favor – dizia ele inquieto – espreite pelo buraco da fechadura do portão …
Desci a estrada e junto à farmácia “Vaz Pereira” espreitei. O buraco da fechadura do portão
opaco em ferro maciço é enorme, mais parece um olho de elefante e o animal lá
estava. Ou por outra, estava o olho dela do outro lado, também a olhar pela
fechadura e ficámos quase pupila com pupila. Pressentiu gente e veio indagar.
Estava no seu direito. Sentindo que poderia ser o dono, zurrou de alegria, atrevo-me
até a dizer que se excedeu, subiu de estatuto e relinchou como o cavalo
rampante do Gary Cooper. Outra vez, salvo as devidas proporções …
Quito Pereira
24-05-1935
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old_coimbra
Nos anos 90 a Rua Ferreira Borges foi fechada ao trânsito e empedrada. A baixa ficou mais amiga do cidadão e arejada.
Onde não se faz molho, não se estende vencilho.
A recorrência dos temas, ou melhor, a recorrência de alguns tópicos de abordagem similares quando falamos de temas distintos, é uma forma grata de construção do discurso. Não se trata de preguiça nem de cópia cediça ou requentada, retocada aqui e ali para dar um ar de novo; trata-se, isso sim, de um exercício de coerência, da edificação de pedras angulares daquilo que somos enquanto pessoas que comunicam. Refundir e usar as coisas é uma forma de criar o caráter e todo o crescimento parte do que já existe; nada se cria do nada.
Com esta ideia, gostaria de voltar a falar da importância que algumas personagens têm na nossa vida, porque nos ensinam e nos dão o motivo de escrever. É um pouco esquisito quando as personagens que construímos são quem nos ensinou o que sabemos. Fica sempre aquela sensação de que não lhes estamos a fazer a justiça devida quando falamos delas e as tornamos protagonistas das nossas histórias. Elas são os nossos professores e nós, os supostos criadores, somos os seus alunos, pois ficção e realidade andam, neste caso de mãos dadas. Os nossos familiares e vizinhos mais velhos são os nossos mestres, porque nos ensinam, e quando falamos deles, seja porque já partiram, seja porque não estamos cercanos, tornamo-los em personagens das nossas histórias e são, por isso, figuras de ficção.
A este propósito, assaltam-me a lembrança algumas conversas com metáforas de sabedoria em que ele, andando com o filho a apegar batatas – isto é, a realizar a primeira rega a pé das batatas, em que o terreno teria de ser todo ele nivelado à força de sachola para que a água chegasse a todos os pés de toda a torna – ensinava cantigas antigas e se saía com alguns aforismos de sabedoria popular. Na altura, parecia ao jovem que algumas das frases não faziam sentido, até porque ele já estudava na cidade, no 12º ano, e o pai só tinha a 4ª classe. No meio daqueles almanaques de ensinamentos usou uma frase com, supostamente, uma moralidade implícita: “onde não se quer fazer molho, não se estende vencilho”. Para o jovem, todas as palavras faziam sentido, mas a frase não. Era claro que onde não se vai fazer o molho não se coloca o vime ou as cordas que serviriam de vencilho – ou vincelho – e por isso a frase não representava nada mais do que isso. Contudo, as palavras ditas a seguir foram a pedra de roseta daquilo que tinha dito: “Agora que começaste a namorar, vê lá como te portas!”
Afinal, a forma lúdica de pedagogia tinha agora assumido uma conversa de homens, muito para além de uma transmissão de ensinamentos gerais. Havia ética e moral no que dizia, havia a pedagogia dos valores que fazem caminhar com a coluna direita. Admirava-se o jovem por o pai já saber do namorico que tinha começado há pouco, – geralmente são as mães quem primeiro se apercebe disso e os pais fingem não saber – mas percebia perfeitamente o que ele queria dizer. Por isso, no domingo, depois da missa e enquanto a acompanhava a casa, ao subir a costa do cemitério, decidiu que era por ali que queria estender o vencilho e fazer com ela o feixe da sua vida.
...e continuamos casados.
Professor Antonino Silva
LÓ
12-05-1949
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07-05-1941
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04-05-1951
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03-05-1946
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Regresso hoje ao convívio dos amigos. Dos amigos que tenho
virtuais, mas também reais das cidades que se cruzam comigo no meu horizonte de
vida – Coimbra, Castelo Branco, Leiria e Lagos. Conheço o pulsar das quatro
cidades, a de Leiria ainda em embrião. E hoje, martelando nas teclas do
computador, recordo a capital albicastrense e do almoço no “Arena de Verona”. Durante os dias de
estadia, foi uma procissão de pratos italianos que me deliciaram. De ver as
gémeas hoje adolescentes e de lembrar velhos tempos e da sua paixão pelo violino.
De ouvir os conselhos de gastronomia de Zeza Aldriguetti e do sempre atarefado
Evis Aldriguetti, que me saúda e me fala dos problemas da vida. E Hugo,
empregado de mesa da casa, que me fala da Académica e me diz que tenha fé no
êxito dos “estudantes” - uma amabilidade. Depois a cidade, na sua vida morna.
Da farmacêutica que me conhece há longos anos e não tendo o produto que eu necessitava
se meteu no carro e o foi procurar, mesmo sendo a compra de valor
insignificante. Da calma e da ordem das gentes que junto ao pavilhão de
vacinação aguardavam a sua vez. E da simpatia dos profissionais que ajudam a
mitigar este pesadelo coletivo. Como está bela a capital da Beira Baixa ! Das
filhós às resmas no escaparate das lojas de alimentação. E dos bolos regionais
e do pão do Salgueiro do Campo com a côdea a estalar. Mas o melhor de tudo são as
gentes. De sentirmos que partirmos sem partir. De nos percebermos estimados e
albicastrenses de adoção. Fechar a porta e abandonar a cidade e regressar às
margens do Mondego. Um travo amargo – doce e olhar o Castelo altaneiro, sentinela
da planície. O contentamento de regressar em breve, caminhando pela estrada e
pela vida como quem vai tecendo em horas de lazer e de prazer um bordado de
Castelo Branco.
Kito Pereira
O ti Francisco trabalhara uma vida inteira naquele labutar árduo do campo, onde raramente entrava o arado pela pequenez das suas terras. Eram os seus braços que levantavam e baixavam o sacho e a enxada que abria a terra; os mesmos braços que seguravam o machado e a pedoa para arranjar lenha; ou o malho e mangual para debulhar o grão, feijão, centeio, cevada...os mesmos que, com devoção seguravam um varal do pálio em dias de procissão ...
No fim do Verão adoecera com as maleitas e não houve mezinha que o revigorasse. Dia a dia definhava, dizia a sua Benedita, limpando algumas lágrimas na aba do avental.
Se a família já era tão pobre como iriam sobreviver a sua mulher e as duas filhas sem o seu amparo, diziam as pessoas muito condoídas, que tentavam repartir o quase nada que tinham para lhes matar alguma fome. O pior foi quando o frio arribou descontrolado, ora em louca ventania, ora em forte enxurrada ...
Certa tarde, os sinos desataram a dobrar, numa toada longa e triste. Foi um anoitecer que quebrou a rotina das noites frias da minha infância!
Eram cinco da tarde e a escuridão da noite já se preparava para adormecer deitada na alvura dos lençóis da neve que cobriam a terra.
Minha tia corria de eira para beira, a espreitar a cama da Mimosa, a achegar-lhe mais uma faixa de feno, a tapar a capoeira das galinhas já resguardadas, a fechar bem a cortelha do marrano, a apanhar umas torgas para atear o lume e dispunha-se a subir as escaleiras quando reparou na altura da neve que as cobria. Voltou à loja e subiu as escadas de madeira que abriam para a sala pequena por um alçapão. Foi até à cozinha e voltou atrás, de vassoura na mão para varrer alguns galhitos que escorregaram do molho. Aproveitou para apanhar a cinza ainda afogueada para a pilheira, juntou os tições meio ardidos e colocou lá por trás um novo cepo que iria aguentar o serão. Pegou na chaminé do candeeiro a petróleo, passou-lhe um esfregão bem ensaboado, depois por água limpa e pediu-me para, com muito cuidadinho, limpar por dentro com o jornal “Amigo da Verdade” da semana anterior, pois a minha mãozita era pequenina, enquanto ela enchia de petróleo o depósito e puxava a jeito a torcida pelo bocal. Depois, com um galhito do lume acendeu a torcida, colocou a chaminé e pousou-o no pedestal!
_ Boa noite nos dê Deus! – disse.
_ Deus nos salve – respondi eu, como me tinham ensinado.
Depois, foi um ver se te avias. Embrulhou-se no negro xale de lã e de botas de borracha correu ao chafariz a encher o cântaro da água, que acabara de despejar para as panelas de ferro encostadas ao lume. Recomendou-me que não cirandasse perto da lareira enquanto ela não chegasse. Podia sentar-me a descascar batatas para o caldo escoado.
Assim fiz. Não tardou a soar o toque das Trindades e a minha tia já arribara.
_ O Anjo anunciou a Maria...- rezou meu tio que chegava da carpintaria nesse mesmo instante, e nós fomos respondendo, de pé, com as mãos postas, como era nossa devoção e respeito.
Iria começar o serão com a monotonia dos dias gelados de Inverno, não tivesse aparecido a Ti Benedita, em soluços, dizer que já se tinha ”matado” (morrido, deveria ter dito) o nosso Chico, coitadinho, que já estava muito doente havia tempo e não aguentara o frio.
Meu tio acendeu o candeeiro de mão e desceu novamente. Foi cortando umas tábuas de pinho que sempre tinha de lado. Não tardou a ouvir-se o martelar de pregos. Só voltou a subir quando minha tia lhe pediu que viesse que a ceia estava na mesa.
O caldo escoado quase foi engolido, em pesado silêncio, como se tivéssemos medo que a morte andasse por perto. Minha tia pôs pimentos curtidos na mesa, para acompanhar a sopa, pois a carne cozida ao almoço, agora, parecia não cair muito bem...
Arredámos a mesa, a tia lavou a loiça, pôs mais umas achas no lume, encostou-lhes uns rebolinhos (pedras redondas apanhadas na ribeira) para levarmos mais tarde a aquecer-nos os pés na cama. Passámos pelo alçapão, só utilizado nos dias muito frios, e fomos para a carpintaria. Meus tios forraram as tábuas com um pano negro por fora. Dentro puseram uma colcha branca de algodão que a Ti Benedita trouxera de sua casa. Depois estendeu-se um tecido de tule branquinho, que iam entufando e eu prendia com preguetas de cabeça com forma de estrelas doiradas. À cabeceira pregámos uns anjinhos, também doirados. Parecia uma caixinha bonita para fazer de berço, pensava eu de mim para mim, sem me atrever a levantar a voz, por respeito à dor que sentia haver à minha volta.
Georgina Ferro
25-04-1946
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A culpa não é das estrelas.
No decurso dos dias que perfazem anos, parece que há estrelas que se ajeitam para “nos fazerem a cama”. A expressão “fazer a cama a alguém” não engana quem a lê e a leitura que resta é disfórica, isto é, não agoira coisa boa.
Na realidade, para uns parece que se abrem autoestradas para o sucesso, enquanto para outros os caminhos são quelhas para vidas tortas. As estrelas são as culpadas! Ou será que não?
Tenho comigo que cada um é quem traça o seu caminho e devemos, por isso, deixar as estrelas em paz; mas também acredito que há coisas que nos acontecem sem sermos a maior causa disso.
O exemplo maior foi a vida miserável do Bate-Torto, de Escarigo, uma localidade perto de Caria, na estrada que vai de Monte do Bispo para a Meimoa. O Bate-Torto chamava-se Joaquim Gemunde e tinha esta alcunha porque a herdara do seu pai, um jeitoso que fazia as vezes de ferreiro na aldeia. Como não era encartado na profissão, o pai não aprimorava os trabalhos e batia ao deus-dará na safra. Onde se notavam os maiores defeitos era nos ferros de saibrar, e nas picaretas das minas, que, por serem objetos longos, ficavam irremediavelmente tortos nas pontas. Daí o seu nome. Apesar disso, tinha uma mãozinha certeira para tirar da água os metais incandescentes na altura certa, fazendo a têmpera resistente. Via-se, a olho nu, a linha azul seguir a castanha até ao biquinho, sinal de bom aço e de resistência para mais uns dias.
O Joaquim não tinha mais planos do que casar, ter filhos e continuar a profissão do pai – procurando alterar a alcunha, talvez? – e morrer velho. A mãe é que era um bocado esquisita e nenhuma rapariga da aldeia ou das redondezas lhe agradava: umas porque eram umas delambidas; outras porque eram umas ‘zuratas’. Tinha de ser uma moça mais digna, de preferência, de fora, por exemplo, de Belmonte.
Nos meados da década de 60, eis que o Bate-Torto foi arregimentado para a guerra na Guiné e partiu sem compromisso nem namorada.
Nessa altura havia uma tradição frequente de os militares, para combaterem a solidão, escolherem uma madrinha de guerra, frequentemente ao acaso, com quem se correspondiam por carta ou aerograma. Alguns conseguiam apalavrar esse contrato antes da partida, mas outros partiam sem nada determinado. O Bate-Torto estava neste segundo grupo.
Quando já levava dois meses de comissão, perto de Bissau, foi aos correios e escreveu uma carta inócua onde se apresentava e colocou no destinatário algo tão difuso como “Primeira donzela de olhos negros que encontrar, Belmonte, Portugal”.
O carteiro que fazia Belmonte conhecia, uma por uma, as famílias da vila e sabia, de cor e salteado, os problemas e histórias de cada lar. Quando lhe chegou a carta do Joaquim, lembrou-se da Leonor Sacristã que vivia na rua da Amendoeira. Sabia que a moça tinha os olhos negros, não destoava na aparência e, de óculos, até parecia bonita. Mas o carteiro sabia também que não era donzela e a idade já pulara mais do que deveria. Com 27 anos e não sendo casada, era aquilo que na altura se chamava “encalhada”. Tivera um namoro que ‘cheirara a ferrugem’ – que durara muitos anos – e que terminara por causa do seu mau génio e do desleixo nas lidas da casa.
Como tinha alguma pena dela, o carteiro acabou por passar por outras “donzelas de olhos negros” e foi direitinho a casa da Leonor entregar a carta. Com essa entrega carimbou a passagem para o entendimento entre ambos. Trocaram fotos de madrinha de guerra, a Leonor passou depressa a apalavrada, depois a namorada e, finalmente, a noiva.
Quando o Joaquim voltou foi conhecê-la em pessoa. A visão da solidão por terras de Bissau filtrou a capacidade de ver quem tinha perante si e manteve o compromisso. Casaram, fizeram boda e foram viver como caseiros nas Quintãs. A pobre senhora não tinha jeito para nada, nem na lida doméstica nem na lavoura. Muito cedo surgiram as desavenças, as ameaças e as agressões de parte a parte e ambos foram sempre infelizes.
Até hoje, o Bate-Torto ainda não perdoou ao carteiro!
Antonino Silva
Tenho uma janela
Que dá para o mar
(...)
Sonhos a partir
Sonhos a chegar
Tenho uma janela
Que dá para o mar
(...)
Chego-me à janela
E não vejo o mar.
21-04-1949
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PARABÉNS
JOSÉ DA COSTA(denominação artistica)
António Seixas(Bairro Norton de Matos-Coimbra
ANTÓNIO SILVA GASPAR
1926-2021
Sócio nº 1 do Centro Norton de Matos
Encontro de Gerações apresenta a toda a família
sentidas condolências
Cremação do corpo no Complexo Funerário de Taveiro, amanhã Segunda Feira, dia 19 pelas 11H00
17-04-1948
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