quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O TABUINHAS ...





Ribeira do Ocreza ... 

Roda que roda, o meu carro corre devagar ao encontro do silêncio das montanhas. Uma reta breve que bem conheço sobe ligeira até ao planalto, para depois a estrada afundar num vale, numa dança ao sabor das linhas de água. Acolá, vislumbra-se um pequeno pontão e, por baixo do pontão, em saltitante convívio com as fragas, as águas cristalinas da ribeira do Ocreza.  Também uma cruz, firme numa base de cimento, a recordar um acontecimento trágico das armadilhas da vida. Ao lado do pontão, uma casa. Uma casa velha e degradada. Tem as portas sempre fechadas e é quase um mistério. Não se vê vivalma mas, ao olhar as traseiras da habitação de madeira, vislumbra-se um estendal de roupa multicolor a secar ao vento e pressente-se que ali vive gente. Ao lado da roupa, jaz uma velha carrinha que é um hino à ferrugem. A casa, porém, tem uma história que se perde nos tempos. Por ser feita de tábuas, foi batizada de tabuinhas. Foi taberna, que era o oásis dos que vindos das aldeias a ganhar a jorna na cidade, ali paravam para beber um copo de vinho na caminhada que ainda faltava para o destino albicastrense. Era, para muitos, uma peregrinação diária de cerca de trinta quilómetros a pé, se contarmos a ida e o retorno. Diziam alguns, que também por ali passavam mulheres da vida, uma versão pouco consistente. Deixar o Tabuinhas e subir o vale até novo planalto. Virar à direita por uma estrada estreita, olhar algumas vivendas dispersas e continuar a rota de todas as lembranças. Quantos dias por ali passei. Quantas noites de inverno com a chuva a varrer a vidraça do pequeno carro. Quantos fins de tarde na taberna do João, rodeado de gente simples. Então, enquanto os copos de vinho se iam alinhando no balção de granito, eu falava. E eles, em sociedade fraterna, ouviam em religioso silêncio e achavam que eu era o poço de sabedoria que não era. Que eu era o rei que não era. Um rei sem trono. Eles, o João, o Morgado, o Rosa, o Calmeiro, o António e o Joaquim que eram irmãos e outros tantos, que tiveram vidas difíceis e cheias de obstáculos, de privações e canseiras, é que eram os meus catedráticos da vida. Sabiam do tempo, sabiam das sementeiras, sabiam distinguir o voar do gavião do planar de uma águia e do cantar pleno de um rouxinol. Sabiam da natureza e das coisas importantes da vida. Por isso, no dia em que parti porque eu era um deles, vi olhos baços e rostos de emoção.

E eu hoje, aqui e agora, sentado neste muro olhando o Moradal, já só oiço o silêncio do jorrar da água na fonte centenária. Inspiro o ar fresco campesino que me entra nos pulmões e relembro o passado nesta ausência. E ao deambular por aquele tempo de concórdia e pela aldeia singela de Freixial de Campo, o meu coração diz – me que por eles fui estimado e  que a todos honrei.  Porque eu gosto da gente simples.
QP    

6 comentários:

  1. Na descrição inconfundível do Quito ficamos situados na taberna do tabuinhas, ponto de passagem depois de um dia de trabalho a ganhar o sustento.
    Aqueles homens simples ouviam as preleccoes do Quito com um reverêncial silêncio porque encontravam nas suas palavras a sabedoria que lhes escapava.

    Mas o Quito apressa-se a desfazer o equívoco enunciando algumas das verdadeiras e sábias experiências de vida daqueles homens simples.

    Eles sim uns verdadeiros sábios. ..

    Porque sábio é aquele que aprende com o saber dos outros desvalorizando o seu próprio saber...

    Muito se aprende com o Quito Pereira...

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  2. Caro Rui

    Desfazer um equivoco: o Tabuinhas fica sensivelmente a meio caminho entre Castelo Branco e o Freixial do Campo. A Taberna do João é no Freixial. Escrevi: deixar o Tabuinhas e subir o vale até novo planalto. Virar por uma estrada estreia (...)

    Obrigado pelo comentário. Sempre que percorro a estrada 111, de Castelo Branco para o interior, o Tabuinhas, que parece um barracão frágil, lá vai resistindo ao tempo. Apenas não resistiram já muitos dos com quem convivi. Ficou a memória.

    Um abraço ...

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  3. Ainda em complemento do texto: o Tabuinhas já no meu tempo estava fechado. Era na tasca do João no Feixial do Campo, que eu me reunia com aquela sociedade. O Tabuinhas ficou como baluarte de tempos de grandes dificuldades e miséria. O tempo de viajarem a pé para ganharem a jorna. Porém, naquelas épocas recuadas de 40 e 50 do século passado, um homem de nome Manuel Pedro da Silva, montou num barracão em Salgueiro do Campo, uma loja onde vendia bicicletas. As conhecidas "pasteleiras", muito pesadas. Alguns, de dinheiro amealhado e outros a prestações, compravam bicicleta para se deslocarem a pedal para o trabalho em Castelo Branco. Mas eram poucos e a bicicleta passava a dar ao seu proprietário um outro estatuto. Eram "ricos" em relação aos que tinham que se deslocar a pé. A estrada era acidentada e de mau piso, com muitas subidas e descidas, o que exigia muito esforço físico, mas com grande poupança de tempo. Afinal estórias que o Manuel Pedro da Silva me contava e que também ele penou pelos poços das Minas da Panasqueira . Mas isso são outras recordações pardas ...

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  4. O Quito continua a brindar-nos com excelentes textos.
    É mais uma vez sobre a sua experiência vivida nas cercanias de Castelo Branco, onde viveu vários anos, percorrendo montes e vales prestando-se à entrega dos medicamentos adquiridos na farmácia que era da sua esposa São Vaz e que os doentes não tinham possibilidade de se deslocar.
    E era nestas deslocações fosse verão ou inverno que se encontrava com os fregueses de tabernas que conversavam,e lhe admiravam a sua maneira sábia de falar.
    Com o andar dos anos a desertificação desses lugares tornava menor as pessoas com quem partilhar dois dedo de conversa.
    Fica a saudade desses tempos e a lembrança desses amigos...

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  5. Será que eu também vivi também conheci o Joaquim, o António, o Morgado, o João?!...
    Dou por mim a ver essa gente toda e até me vejo a conversar com todos eles no Tabuinhas.
    Os textos do Quito têm a grande virtude de nos integrar naqueles ambientes, de conhecer aquele povo e até a beleza da paisagem.

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